Eticamente Falando

Caso 11 - Bebés do futuro

Vinheta

Este casal retrata um caso de muitos outras casais, que procuram ser pais, mas que vivem atormentados com a ideia de os filhos poderem nascer com uma doença genética, que lhes poderá comprometer a vida.


“Atualmente, existe uma técnica revolucionária que permite, em laboratório, identificar os embriões que não estão afetados pela doença e depois introduzi-los no útero da mãe. Com este método, é hoje possível fazer nascer em Portugal filhos livres do cancro da mama e do ovário, de doenças neurológicas como Huntington ou Machado-Joseph, de hemofilia, de problemas mentais como a síndrome do X Frágil, de trissomia 21 ou de surdez, entre centenas de outros problemas de saúde.”

“Todos os anos já nascem assim mais de 20 bebés portugueses, segundo dados do Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida (CNPMA). E desde 2006, ano em que passou a existir uma lei nacional para regular esta técnica inovadora, já foram selecionados embriões para mais de 60 doenças diferentes. É aquele organismo que aprova as patologias em que os pais podem usar este método para banir os genes doentes dos seus filhos e que as vai incluindo numa lista. Sempre que há uma situação médica nova, o caso é avaliado para ser dada autorização.”

“Recentemente, o Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida lançou uma lista com novas doenças em que a seleção de embriões passou a ser permitida sem que os centros onde são feitas necessitem de autorização prévia. É o caso de alguns cancros da mama, dos ovários e gástricos, de um tipo de demência (frontotemporal) e do nanismo (anões).”

“O potencial desta técnica, chamada Diagnóstico Genético Pré-Implantação (DGPI), é enorme. Os pais submetem-se a um processo de fertilização in vitro, em que há estimulação dos ovócitos, sendo estes retirados para serem unidos in vitro com os espermatozoides do pai. Aos embriões é depois feita uma biopsia, ao fim de três ou de cinco dias, retirando-se uma ou algumas células que são analisadas em laboratório. E através de mecanismos diferentes, consoante a doença em si, verifica-se se os embriões estão afetados. Uns têm problemas nos cromossomas, como com a trissomia 21; outros apresentam mutações nos genes, como o cancro da mama. No primeiro caso, contam-se os pares de cromossomas e só se colocam os que têm número certo — ou seja, 46 (23 da mãe e 23 do pai). No segundo, procuram-se embriões sem a modificação do gene em questão. Depois, apenas o embrião ou embriões saudáveis são inseminados na mãe e os outros são destruídos.”


“No entanto, o tema gera polémica em todo o mundo. É que há quem conteste esta ideia de seleção de embriões, garantindo que é uma forma de apuramento da raça, intitulada de eugenia, mesmo tratando-se de evitar doenças. Até porque, desde que originou a primeira criança, em 1990, no Reino Unido, a selecão de embriões sofreu grandes avanços. E hoje está a ser aplicada por razões não médicas: é através do DGPI que centros médicos de alguns países, nomeadamente nos EUA, estão já a oferecer a escolha do sexo dos bebés com garantias de 99,9% de sucesso. E, ao mesmo tempo, estão a investigar-se outras técnicas de seleção que permitam aos pais escolherem as características físicas dos filhos. Quanto mais se sabe sobre a função de cada gene, mais poder se consegue dar às famílias para decidirem como serão os seus descendentes. Assim, além da possibilidade de banir os genes responsáveis pelas doenças, há quem garanta que nos próximos tempos poderão também selecionar aqueles que tornam os filhos mais saudáveis, mais fortes e até mais inteligentes, criando o que hoje se chama ‘bebés à medida’ ou ‘à la carte’.”


“Na China, o maior centro de genética do país, o BGI Shenzhen, anunciou que recolheu ADN de duas mil pessoas com QI acima da média para estudar o seu genoma, conseguir identificar o que as torna assim e permitir que no futuro se selecionem os embriões que originarão pessoas mais inteligentes. E há três meses, pela primeira vez na história, um grupo de cientistas norte-americanos e sul-coreanos conseguiu modificar em embriões humanos os genes responsáveis por uma doença cardíaca mortal, segundo um trabalho publicado na revista “Nature”.”


“Para muito breve está a possibilidade de os pais escolherem a cor dos olhos, havendo já clínicas que que anunciaram que ia passar a dar a escolher aos pais o sexo dos filhos, e ainda a cor dos olhos e o tipo de cabelo. Em Portugal, mais de 38 famílias portuguesas lhe pediram ajuda para terem filhos de um determinado sexo — opção que em Portugal é totalmente proibida. Mas nos EUA é aceite como método de equilíbrio familiar, ou seja, de um casal conseguir ter filhos de géneros distintos. Neste país já foram criados mais de 8400 bebés à medida dos pais, ou seja, em que estes decidiram o sexo. “


Está cada vez mais próxima, a possibilidade de os pais poderem, cientificamente escolher estas características, podendo até escolher, por exemplo no caso de uma cantora que a filha tivesse a mesma capacidade vocal que ela e alguns atletas desejam que os filhos tenham certas características.


Contudo, este processo de apuramento de características genética poderá afetar o património genético variável, que permitiu a sobrevivência à espécie.  


“Em Portugal é impossível conseguir ter um filho de um determinado género só porque se quer. A lei portuguesa, refere, apenas permite “a seleção do sexo” quando estão em causa doenças ligadas ao sexo, como a síndrome do X Frágil. E, se até há pouco tempo os embriões do sexo masculino (os únicos afetados pela doença) eram todos descartados, agora, com a evolução das técnicas, isso mudou. Atualmente é possível verificar, entre os embriões do sexo masculino, os que têm ou não o problema e usar os que estiverem livres.”


Estará em curso a eugenização da raça humana? É este o debate que muito especialistas estão a fazer.


Adaptado de: https://expresso.sapo.pt/sociedade/2017-11-25-Filhos-mais-que-perfeitos-1#gs.yj6sy2s

 

Consulta mais informações em:

https://expresso.sapo.pt/sociedade/2017-11-25-Filhos-mais-que-perfeitos-1#gs.yj6sy2s

https://ivi.pt/tratamentos-reproducao-assistida/dgp/

https://actamedicaportuguesa.com/revista/index.php/amp/article/download/1417/1006

http://www.cnpma.org.pt/Docs/CNPMA_Orienta%C3%A7%C3%B5es%20DGPI%20FEV2013.pdf