Planear o futuro da formação médica exige olhar para além do número de vagas e garantir que Portugal forma os profissionais de que o sistema de saúde realmente necessita.

Sempre que se discute o futuro do Serviço Nacional de Saúde (SNS), há uma questão que surge habitualmente: Portugal precisa de mais médicos? A resposta parece evidente. No entanto, talvez estejamos a fazer a pergunta errada.

Dados recentemente divulgados pela Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS) vieram reforçar uma realidade que merece ser analisada com atenção. Segundo o estudo, 63% dos jovens médicos que adiam o ingresso na formação especializada fazem-no por não conseguirem colocação na especialidade que pretendem. O principal obstáculo poderá, assim, não estar apenas na remuneração ou na vontade de integrar o SNS, mas também num sistema que nem sempre consegue responder às expectativas dos seus profissionais.

Estes dados devem levar-nos a uma reflexão mais ampla: o desafio que Portugal enfrenta é verdadeiramente a falta de médicos ou a ausência de um planeamento adequado da formação médica e dos recursos humanos em Saúde?

É importante ter presente que a formação de um médico não termina com a conclusão do curso. A diferenciação através do internato médico é uma etapa essencial para responder às necessidades do sistema de saúde e da população. Sem capacidade formativa suficiente para a assegurar, o aumento do número de estudantes poderá criar um novo estrangulamento no percurso formativo.

“Corremos o risco de criar um estrangulamento: aumentar o número de estudantes sem garantir condições para que se tornem especialistas.”

Nos últimos anos, o debate tem incidido sobretudo na abertura de novas Escolas Médicas e no aumento do número de vagas. Contudo, esta discussão não pode acontecer de forma isolada. Qualquer decisão de expansão da formação médica pré-graduada deve ser acompanhada por um planeamento das vagas de internato, disponibilidade de orientadores, capacidade dos serviços e condições necessárias para assegurar uma formação de qualidade.

Caso contrário, estaremos apenas a transferir o problema para uma fase posterior do percurso médico — um problema que, em vários aspetos, já se manifesta atualmente.

Ao mesmo tempo, importa reconhecer que a escassez de médicos não se distribui de forma uniforme. Existem especialidades com elevada procura e outras que continuam a enfrentar dificuldades no preenchimento de vagas, como a Medicina Geral e Familiar ou a Saúde Pública. O mesmo acontece a nível territorial, persistindo regiões com maiores dificuldades em atrair e fixar profissionais.

É igualmente necessário olhar para o futuro. A Medicina de que Portugal precisará daqui a 10 ou 15 anos será inevitavelmente diferente daquela que conhecemos hoje. O envelhecimento da população, o aumento das doenças crónicas e da multimorbilidade, os desafios na área da saúde mental e a rápida transformação tecnológica exigirão profissionais com competências progressivamente mais diferenciadas, capazes de trabalhar em equipas multidisciplinares e em ambientes cada vez mais digitalizados.

Talvez, por isso, a questão que devemos colocar seja outra: estamos a formar os médicos certos, nas áreas certas e com as competências de que Portugal vai precisar?

The Associação Nacional de Estudantes de Medicina (ANEM) defende que o futuro da formação médica deve assentar numa estratégia nacional integrada, ponderada e sustentada em evidência, construída com o envolvimento dos diferentes intervenientes do setor.

Só através de um planeamento consistente será possível garantir não apenas mais médicos, mas também melhores condições de formação, maior capacidade de diferenciação e uma resposta mais eficaz às necessidades dos cidadãos e do SNS.


Maria Fontão
Presidente da Associação Nacional de Estudantes de Medicina – ANEM